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quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Fábula (A vida)


Quero um dia contar uma história
Uma longa historinha
Que agrade a jovens e adultos
E que nada seja mentirinha.

Vou contar coisas da vida,
Dizer que é fábula, e será.
O que vivi e viverei
Na lembrança ficará.

Não só na minha, deveras,
Compartilho a vários alguéns.
Mas, quando tudo virar conto,
De minha palavra
Não duvidará ninguém.

Duendes, gnomos,
Elfos do além.
De minhas aventuras,
Não duvidará ninguém.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Anjo


Bradando doces palavras acima do penhasco da morte, eis que encontro um homem, prestes a cair. Grito sob a alvorada:
-Não vai, resiste!
E ouço palavras ainda mais belas.
Um passo a frente foi o que vi, encostando aquele ser à ponta do abismo, vocifero novamente:
-Fica aí, ou volta!
E um silêncio exorbitante de instantâneo invadiu aquele cenário, cuidadosamente saturado em tons de verde, rosa e azul. Meu peito inflou-se de medo.
Até os pássaros pararam de cantar, o vento parou de soprar e, naquele instante, vejo aquele homem tão insano, de montanha-acima, pousado em minha frente; sóbrio, intacto. Levou-me pela mão até o início da pradaria, trançou em meus cabelos margaridas e, com sua doce voz, pediu-me que fechasse os olhos.
O fiz, e nesse momento senti o mundo girar sob meus pés, e o canto sublime das aves cada vez aproximava-se mais, unindo-se à leve brisa em meu rosto. Quando resolvi finalmente abrir as pálpebras, estou no lugar mais lindo do mundo, cercada de espécies raras e com a vista mais encantadora. Ao meu lado, nada. Viro-me incessante para todas as direções, a fim de encontrar aquele ser celestial que me guiava insensivelmente.
Uso de grande esforço para tentar encontrá-lo em meio à paisagem bela, mas a certeza me diz que ele já integrou-se a ela; orgânico, mortal. Anjo meu, foi tudo um sonho ou perdeu-te de mim? Esperar-te-ei até minha morte, quando nossas asas entrelaçar-se-ão no fim do horizonte.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

A garota e o vaga-lume




Sozinha na multidão; parada, frágil, atormentada ouvindo o lamúrio dos mortos-vivos.
Sentada ao chão nessa floresta inundada de almas, procuro, incessante, em meio ao turbilhão de tumulto, o horizonte. A nostalgia sobe por meu esôfago como uma bolha de sangue escaldante; minha diversão é o filme mudo, apagadiço, dos fantasmas e seu vai-vem, quiçá mudo pois já me embebi dele, suguei-o.
Em meio ao cenário emblemático cinza, que me envolve a tanto tempo, vejo um feixe claro, um vaga-lume, que irradia o verde-musgo das árvores e tira da nébria da eterna noite tantas belezas ocultadas pela constante e impermeável matiz monocromática.
Em um pequeno instante sinto que não pertenço a esse lugar, que há algum sítio distante onde eu possa ir, que não exista só a escuridão, o medo, o torpor das almas. É de onde esse ser veio, de onde trouxe a luz que agora me banha, sua luz.
Enquanto brinca comigo de longe, sinto-me mais perto dele do que me senti a vida toda neste mundo, entre esbarros e tropeços em seres inertes. Penso como farei para tê-lo, para trazê-lo até mim. Nesses poucos instantes que tudo isso me passa pela cabeça -séculos em minha mente-, sinto que a energia cedida a mim por aquele desconhecido toma forma, e se transforma em uma chama de coragem. Tomarei essa chama e transporei esse mundo de sombras que me cerca e me toma. Irei atrás de meu vaga-lume por céu e por terra para capturá-lo; sairei dessa infímia terra de mortos.
Levanto, sem tirar os olhos daquele ser que me entorpece, esqueço tudo e flutuo em sua direção, em sua luz. Ao chegar mais perto, a imensidão desaparece. Somos só eu e você; nós e nossa luz.
Mil anos se passaram para eu achar o que sempre procurei; finalmente um brilho em mesma sintonia para enfim virarmos energia e sermos o sol deste mundo gris.

sábado, 9 de abril de 2011

Nunca minta para seus sonhos

Aí vai a história de um sonho que eu tive, que veio bem a calhar para salvar este blog da solidão e/ou da mesmice.

Estava em um casamento. Vestido verde musgo de couro. Longo, com estampas. Sapatos a combinar. O casamento não era robusto, era modesto. Um terreno cercado de árvores e um palco bem no meio; ao fundo. A noite escurecia tudo o que tocava, e as tochas acesas estavam lá para romper o breu. De nada convencional, o noivo e a noiva se viram antes da cerimônia, enquanto os convidados chegavam. Em instante de poucos minutos, cada lugar nomeado estava ocupado, e nos que estavam destinados para os acompanhantes, ainda havia alguns vazios. Encontrei minha turma, que junto comigo desejava cumprimentar os noivos encenando uma peça de amor e ódio que os homenageassem, antes da cerimônia. Nossas roupas estavam guardadas em baixo de um guarda sol de palha que camuflava a existência delas. Logo ao chegar de todos, vestimo-nos à caráter e começamos nossa obra-prima. Moças de capa ancha, um cavalo branco, uma bruxa, um vampiro, a alma da noiva (encenada por mim, destinada a morrer ao fim para salvar a vida da principal), gnomos, elfos, tholls e moças da floresta: esses eram os representados. Com o passar da peça, noivo e noiva intrometeram-se esperadamente no desenrolar. Sabiam o roteiro quase que numa magnificência mágica e íamos fazer com que tudo corresse certo, assim era o roteiro. Mortes, brigas, o moçinho (noivo) que deveria salvar tudo ao fim... E no entanto a bruxa venceu no final.

A peça acabou diferente do esperado. Os convidados, foram sumindo num desfecho de abrilhantar-nos os olhos, pois não os reparamos saindo enquanto atuávamos como se nossas vidas dependessem daquilo. Aliás, nem os mesmos notaram-se saindo; apenas, esvaíram-se. Nós, no fim da peça, de uma equipe que chegava a dezesseis pessoas fora os noivos, já éramos apenas eu, os noivos e mais uma colega que não estava no palco conosco, e, como uma sanguessuga de memórias, algo arrancou-nos da cabeça a existência do tal casamento e, a bruxa e o vampiro, o vampiro conhecido e a bruxa que não sabíamos quem a estava representando... Estes ficaram. Ficaram lá, alimentando-se dos seres antes motivo de nossa especulação artística. Alimentando-se da alma, do corpo... E das memórias de nós 4, que por vias do destino fomos salvos da chacina. Ela, o responsável por destruir aquele casamento incomum de dois eternamente apaixonados, agora crua, sem sua capa ou véu ou peruca. Agora com sua carcaça aparecendo e mostrando quem realmente era. Não tínhamos coragem de olhar. Saímos anônimos de lá, da umbra vazia.

Sem identidade, sem casamento, sem amigos, sem amor. Éramos apenas... O retrato do fim daquela festa.
... A nossa festa que nunca existiu.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Dia dos bobos.

Era uma vez um menininho calmo, que gostava de mágica, chamado Mateus. Ele sofria bullying na escola, independente do que fazia para mudar. Se agia como os populares, era zuado; se andava alternativo, também. Ele nunca foi diferente dos outros: Camisas com cores escuras, calças jeans, meias brancas... Mas mesmo assim sempre havia algo a ser motivo de deboche nele, e nunca era revelado. Sentava no fundo e ficava vendo toda a turma dar olhadelas para trás e risadinhas discretas e, na hora dos trabalhos em grupo, era ele com ele mesmo. Quanto mais tentava ser igual, mais era tratado como diferente, imagina se descobrissem do fascínio dele por fazer mágica, que não fazia parte da vida de nenhum dos colegas...

Um dia, no dia dos bobos, Mateus decidiu que não aceitaria mais aquela vida e, ao sair da cama, resolveu se "transformar". Decidiu que aquele garoto que tratava todos da mesma forma, razoavelmente bem, mesmo sem retorno, não seria mais o mesmo. Saltou da cama, colocou as últimas roupas de truque que havia comprado pela internet, seus sapatos favoritos e suas meias laranjas. Após o café, não foi de van como sempre, com os colegas, foi de bicicleta. Chegando na sala, todos os olhares eram para ele: As meias escandalosas, a capa preta, as luvas em plena primavera...

Sua mente não estava mais focada em ser como os outros, mas sim como ele mesmo. E, se aproveitando da situação, se vingar dos que nunca foram simpáticos com ele. Ao estacionar a bicicleta, encontra com os valentões do quinto ano, que sempre abusavam de sua ingenuidade para fazer as coisas mais asquerosas que os meninos do ensino fundamental imaginam; até lixo eles já o fizeram comer. Um sorrisinho de canto nos lábios do menininho indicava que naquele dia não sofreria. Os meninos maiores chegaram e foram surpreendidos pelo esguicho d'água da flor de sua capa, a qual teve seu conteúdo substituído por água com detergente e arrancou lágrimas daquelas crianças mal-intencionadas.

No momento do incidente, todos os colegas do quarto ano de Mateus estavam passando de fininho, pois também sofriam nas mãos dos meninos mais velhos. Eles assistiram toda a cena e entraram em uma felicidade extasiante, vibrando com a "vitória dos menores" e saudando seu colega como o herói. Aquele dia foi assim, e Mateus teve pena de usar seus truques sórdidos com quem o estava venerando, então fez truques de mágica e piadinhas inocentes do dia dos bobos. Nos outros dias, não importava mais se Mateus era igual ou não aos colegas, não importava se ele gostava de mágica: todos gostavam e respeitavam ele. Daquele dia em diante, Mateus foi feliz.


E VIVA PRIMEIRO DE ABRIL o/