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terça-feira, 15 de maio de 2012

Abatendo o delírio

Lisergia que acorda os famintos olhos
Cansados de esperar pela realidade desse lampejo
De ver a chuva bater sem ferir
Incendeia minha verve.
Fito o relâmpago, arremessam-me estacas,
O incerto machuca, o incerto abate.
Dum instante ao outro todo esse imaginário dissipa-se
Junto com a neblina que embassa e confunde a visão
Que faz pensar que a chuva não dói.
A chuva dói, sim
Mas podemos evitá-la.
Podemos amar, e assim cobrir-nos impermeáveis.
Mas a neblina que ainda hoje me fez deixar a sanidade
Volta quando lhe dá vontade
E apenas um outro olhar faminto e talvez nem tão cansado
Pode levar-me onde a neblina não bate,
Levar-me às nuvens,
Fenecer minha tensão.
Abater-me dos lampejos,
Apagar a escuridão.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Ciclo de Pandora

Abro minha caixa de Pandora vez em quando.
De lá saem coisas boas e estranhas.
Minhas espinhas estão lá –Oh se estão – nesse instante.
De lá sai o infinito, disfarçado de horizonte.

Ali, as rosas conotam-se demais:
Uma chuva é avião
E uma briga, furacão.
Sempre há mais tempo para a curiosidade,
Nessa tamanha pequena caixa.

Às vezes Pandora abre-se por conta;
Groelomba que vem à tona,
Engole meu eu e deixa
Nessa terra devorada
Um ser estranho, corrupto,
Que não substitui o corpo que jaz livre
E um dia terá de voltar
Para reivindicar o que é seu.

Pandora enfim fecha-se e adormece.
E como um sonho, a qualquer momento,
Abrir-se-á outra vez.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Azul, meu mar azul.

Azul, meu mar azul,

Vermelho como o sangue que passa em meu coração,

Preto, não chego a ver solidão.

Amo, amo o mar que despeja em mim,

Minha cabeça enlea-se em ti

E a arquitetura do véu das cidades

Enreda meus sentidos

E constrói minha mente,

Abre-se perante os olhos

E joga-se em meu coração.

Mar, tão azul e tão construído

Em minha canção.

domingo, 13 de novembro de 2011

Vento noturno


Singelo feito o vento
Austera brisa de amor,
Revoa meus cabelos; atento
Às plumas passando em furor.

O frio à carne amacia a pele
E a meia luz acata as ordens da Lua.
Ay, que me quemo aquí,
Co'a minha alma crua, nua.

domingo, 30 de outubro de 2011

Que horas são?

Dos rabiscos
Só saem trevas;

Dos olhos,

Decepção.



Cá, em um sítio mal-alumiado,

Sob o efeito estereoscópico

Das horas

Que já nem sei quais são,

Ouço um vento

Uivando algo.

Já é tarde,

Não falo a língua dos sons.



Monocromático cai em mim;

Tiras de vermelho apontam algo.

Vermelho-sangue: fecho os olhos

Para fugir.



Deito sob a sombra do tempo,

Numa nesga de luz zenital.

Paro, penso, olho,

O vermelho-sangue que jaz estagnado.



Da meia-noite, penso eu,

Só há gemidos

De um pobre potro

Em alguma charrete fantasma.

Vermelho-vivo, vermelho-sangue...

Não me julgue,

Os poetas sentem diferente.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Estrada sem fim



Nessa estrada da noite

O pranto que ainda não rompeu

Desabrochará

Em belíssima flor

Que emanará

Sério canto,

Um alento em furor.



Olhos fechando,

Livrando-se da dor.

Amena ardência

A queimar as batidas,

Incendiar coração.



Bela Lua,

Que só observa,

Mostra o caminho,

Sem pranto,

Sem dor.

sábado, 18 de junho de 2011

Sonho ou realidade? ...Maybe the two

Sonho sobre sonho
Acordo de vez em quando
Confiro meu passado
Vou-me embora com o presente.
Acendo as lamparinas
Verifico a lenha no fogão
Acordo de vez em quando
Confirmo o meu presente.
Parece uma ilusão
Que loucura, confusão.
Confirmo meu passado,
Vou para o futuro, hoje não.
Direita, esquerda, bruços, ante-mão
Confiro meu passado
Sonho sonho
Emoção.
Abro as janelas
Vejo a pradaria
Remexo na cama
Olho para cima
Meu holograma de oito metros
Remexo na cama
Vejo o meu sonho
Vejo a minha cama
Remexo na cama
Vejo três ambientes
Vou para um
Vou para outro
Remexo na cama.
Acordo em um pulo.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Sonho de Herói

Com um galho de bambu verde
e dois ramos de palmeira
eu hei de fazer um dia o meu cavalo
- com asas!
Subirei nele, com vento, lá bem alto,
de carreira,
Voarei, roçando o mato,
as copas em flor das árvores,
como se cruzasse o mar...
e até sobre o mar de fato
passarei nas nuvens pálidas
muito acima das montanhas, das cidades, das cachoeiras,
mais alto que a chuva, no ar!
E irei às estrelas,
ilhas dos rios de além,
ilhas de pedras divinas,
de ribeiras diamantinas
com palmas, conchas, coquinhos nas suas praias também...
praias de pérola e de ouro
onde nunca foi ninguém...


Murilo Araújo

sábado, 9 de abril de 2011

Nunca minta para seus sonhos

Aí vai a história de um sonho que eu tive, que veio bem a calhar para salvar este blog da solidão e/ou da mesmice.

Estava em um casamento. Vestido verde musgo de couro. Longo, com estampas. Sapatos a combinar. O casamento não era robusto, era modesto. Um terreno cercado de árvores e um palco bem no meio; ao fundo. A noite escurecia tudo o que tocava, e as tochas acesas estavam lá para romper o breu. De nada convencional, o noivo e a noiva se viram antes da cerimônia, enquanto os convidados chegavam. Em instante de poucos minutos, cada lugar nomeado estava ocupado, e nos que estavam destinados para os acompanhantes, ainda havia alguns vazios. Encontrei minha turma, que junto comigo desejava cumprimentar os noivos encenando uma peça de amor e ódio que os homenageassem, antes da cerimônia. Nossas roupas estavam guardadas em baixo de um guarda sol de palha que camuflava a existência delas. Logo ao chegar de todos, vestimo-nos à caráter e começamos nossa obra-prima. Moças de capa ancha, um cavalo branco, uma bruxa, um vampiro, a alma da noiva (encenada por mim, destinada a morrer ao fim para salvar a vida da principal), gnomos, elfos, tholls e moças da floresta: esses eram os representados. Com o passar da peça, noivo e noiva intrometeram-se esperadamente no desenrolar. Sabiam o roteiro quase que numa magnificência mágica e íamos fazer com que tudo corresse certo, assim era o roteiro. Mortes, brigas, o moçinho (noivo) que deveria salvar tudo ao fim... E no entanto a bruxa venceu no final.

A peça acabou diferente do esperado. Os convidados, foram sumindo num desfecho de abrilhantar-nos os olhos, pois não os reparamos saindo enquanto atuávamos como se nossas vidas dependessem daquilo. Aliás, nem os mesmos notaram-se saindo; apenas, esvaíram-se. Nós, no fim da peça, de uma equipe que chegava a dezesseis pessoas fora os noivos, já éramos apenas eu, os noivos e mais uma colega que não estava no palco conosco, e, como uma sanguessuga de memórias, algo arrancou-nos da cabeça a existência do tal casamento e, a bruxa e o vampiro, o vampiro conhecido e a bruxa que não sabíamos quem a estava representando... Estes ficaram. Ficaram lá, alimentando-se dos seres antes motivo de nossa especulação artística. Alimentando-se da alma, do corpo... E das memórias de nós 4, que por vias do destino fomos salvos da chacina. Ela, o responsável por destruir aquele casamento incomum de dois eternamente apaixonados, agora crua, sem sua capa ou véu ou peruca. Agora com sua carcaça aparecendo e mostrando quem realmente era. Não tínhamos coragem de olhar. Saímos anônimos de lá, da umbra vazia.

Sem identidade, sem casamento, sem amigos, sem amor. Éramos apenas... O retrato do fim daquela festa.
... A nossa festa que nunca existiu.

sábado, 26 de março de 2011

Chuva na janela

Gotas de luz caem do céu;
Sou eu? É você?
São os vaga-lumes na minha mente.
Vão até metade, não chegam nem ao chão.
A chuva cai, cai lentamente...
Mas os vaga-lumes d'água
Destacam-se das gotas vertentes.

Por que será que vira excessão..?
Que a luz não adentra
Em todo coração?
Mas os relâmpagos acendem, ascendem,
E clareiam a noite.
Minhas gotas vão caindo:
Sou interminável, mas sou intermitente.

A brisa aira essa cena de esplendor.
Uma visão obsoleta,
Uma noite de fervor.
E o que muda é apenas o sentimento.
Pois com qualquer outro não se nota
O clamor, o amor.
Apenas um novo olhar da chuva fria...

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Uma roseira em meu jardim


Do ruído venenoso do espinho da rosa
Ao roçar-se sob a pele lisa,
Abre-se a porta para o etéreo.

Sacrifico a ponta de meus dedos,
O poço de minha alma,
Mas me retribui com uma carícia.

O embriagado carinho de um ser inerte
Que jorra veneno de suas asperezas, hoje não.
Hoje, é apenas um toque
Do sulco da melancolia
Regado de toda a delicadeza
Que inebria a tarde menos receptiva
E é capaz de circundar
Dois universos em um.

Ó, delicado espinho, delirante espinho,
Por que não me tiraste a vida?
Entorpece os meus sentidos,
Vira anestesia,
Mas confunde num quintal com cheiro de canela.

Mesmo ao tentar livrar-se de mim,
Contrariando sua existência tortuosa,
Não esconderei meu coração.
E, quando estiver pronto, não exite:
Crave-no em cheio
Seu gume mais mortal.